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5 mudanças emocionais da menopausa que ninguém te avisou

  • Foto do escritor: Psicóloga Amanda Catuna
    Psicóloga Amanda Catuna
  • há 11 minutos
  • 7 min de leitura


Sobre a menopausa, quase toda mulher chega informada em três pontos: calor, irregularidade no ciclo e alterações no sono. São os sintomas que os folhetos citam, que a ginecologista menciona e que aparecem primeiro em qualquer busca na internet.

O que quase ninguém antecipa é a parte emocional. E aqui está o dado que mais surpreende: num estudo com mais de cinco mil mulheres do Reino Unido, publicado no BJPsych Open em 2024, os cinco sintomas mais relatados foram cansaço, problemas de memória, dificuldade de concentração, irritabilidade e sensação de tensão ou nervosismo. Todos acima de 90%. As ondas de calor apareceram em décimo oitavo lugar.

Ou seja: o que a cultura popular trata como sintoma principal da menopausa é, na experiência das mulheres, secundário. E o que elas mais sentem, quase ninguém avisa.

Isso tem uma consequência prática. Muitas mulheres passam meses achando que estão em depressão, que o casamento acabou ou que enlouqueceram, quando na verdade estão atravessando uma transição documentada, que apenas ninguém nomeou para elas.

Reunimos aqui cinco dessas mudanças, com o que a pesquisa mostra sobre cada uma.


1. A menopausa traz uma irritabilidade que parece maior que o motivo

É um dos sintomas mais prevalentes, relatado por cerca de 90% das mulheres no estudo citado acima, e um dos mais mal interpretados. Uma pergunta banal, um barulho, um pedido simples, e a reação vem num volume que surpreende até quem reagiu.

A explicação é fisiológica antes de ser psicológica. A queda do estrogênio afeta vias de neurotransmissores ligadas à serotonina, dopamina e GABA, que são justamente as que sustentam a regulação emocional. Não é que os motivos tenham aumentado, é que a margem para absorver estímulos comuns diminuiu.

O que costuma agravar é a culpa que vem depois. A mulher se sente má, difícil, desequilibrada, e essa autocrítica alimenta o próximo episódio.

Uma leitura que costuma ajudar, e que vem da abordagem cognitivo-comportamental, é separar duas coisas que se confundem: o gatilho externo e a interpretação que você faz da sua própria reação. Talvez valha experimentar a diferença entre pensar "estou com pouca margem hoje" e concluir "eu virei uma pessoa insuportável". A primeira leitura abre espaço para ajuste. A segunda costuma produzir só vergonha.

2. Ansiedade que chega sem contexto identificável

Uma pesquisa de 2022 com mulheres britânicas encontrou que 69% descreviam a ansiedade como um sintoma difícil ou muito difícil durante a transição menopausal. Ainda assim, a ansiedade permanece bem menos estudada que a depressão nessa fase, o que ajuda a explicar por que tantas mulheres se sentem sozinhas ao vivê-la.

O que caracteriza essa ansiedade é a ausência de causa visível. Coração acelerado sem motivo, aperto no peito ao acordar, preocupação sem objeto definido.

Vale notar que parte disso tem explicação em cadeia. Pesquisadores de Harvard e do Mass General Brigham apontam que sintomas físicos da menopausa geram estresse e desconforto que podem ser sentidos como episódios de ansiedade, e que as alterações de sono, muito comuns nessa fase, se conectam diretamente a problemas de humor e ansiedade. Nem sempre é a ansiedade que vem primeiro.

Uma pergunta que pode ser útil quando a angústia aparece: isso mudou hoje, ou eu que estou interpretando de outro jeito hoje?


3. Uma tristeza que merece atenção, não resignação

Aqui os dados são consistentes e importantes.

Uma meta-análise conduzida pela University College London, publicada no Journal of Affective Disorders em 2024, reuniu sete estudos com 9.141 mulheres de vários países e encontrou que mulheres na perimenopausa têm risco cerca de 40% maior de apresentar sintomas depressivos ou receber diagnóstico de depressão, comparadas às que ainda estão na pré-menopausa.

Dois detalhes desse achado merecem destaque. O primeiro é que o risco aumentado aparece na perimenopausa, e não na pós-menopausa, o que sugere que a fase de flutuação hormonal pesa mais que a queda estabilizada. O segundo é que o padrão se manteve consistente em amostras de diferentes países e culturas.

Outro estudo, acompanhando mulheres sem histórico prévio de depressão, encontrou que aquelas que entraram na perimenopausa tiveram o dobro de chance de desenvolver sintomas depressivos significativos em comparação às que permaneceram na pré-menopausa.

Isso não significa que toda tristeza nessa fase seja depressão. Significa que ela merece ser levada a sério em vez de atribuída a "coisa da idade". Quando a tristeza se torna constante, quando a insônia se instala, quando o interesse por tudo desaparece e a funcionalidade cai, isso pede avaliação profissional. Os próprios autores da meta-análise concluíram que o achado reforça a necessidade clínica de rastreamento e suporte para esse grupo.


4. A sensação de habitar um corpo que mudou as regras sem avisar

Distribuição de gordura diferente, pele diferente, sono diferente, libido diferente. O corpo continua sendo seu, mas passa a responder de um jeito que você não reconhece.

Uma revisão sistemática publicada em 2023 no periódico Women's Health analisou dezoito estudos sobre a relação entre menopausa e imagem corporal, e outros trabalhos qualitativos ajudam a entender o que está em jogo. Um estudo irlandês com mulheres entre 43 e 54 anos identificou quatro temas centrais na forma como elas descreviam a si mesmas nessa fase, e os três primeiros foram perda de identidade e de controle, autoavaliação negativa, e impacto na qualidade de vida.

O quarto tema, porém, era outro: mudanças positivas no autoconceito, com aparecimento de mais autocompaixão e autoaceitação. Vale registrar isso, porque a literatura mais antiga tratava a menopausa quase só como perda, e as pesquisas recentes mostram um quadro mais variado.

Um estudo turco que analisou percepções de mulheres na pós-menopausa dentro do modelo cognitivo-comportamental identificou crenças automáticas recorrentes, do tipo "a menopausa diminui a mulher" ou "faz perder a feminilidade", associadas a emoções como irritabilidade e tristeza e a comportamentos de retraimento social.

Vale examinar essas frases quando elas aparecerem, porque elas raramente resistem a uma checagem honesta. Corpos mudam a vida inteira. E a régua que se aplica nessa fase costuma não ser sua: é herdada de uma cultura que associa valor feminino à juventude.


5. Uma clareza nova sobre o que você não aceita mais

Essa é a mudança menos falada, e vale tratá-la com honestidade sobre o que sabemos e o que ainda não sabemos.

O que aparece na literatura qualitativa é que a menopausa provoca reorganização de identidade e de papéis, no trabalho e nas relações. Um estudo com mulheres em Edimburgo mostrou como elas negociavam ativamente a própria identidade no ambiente profissional durante essa fase. E o achado irlandês sobre autocompaixão e autoaceitação sugere que, para parte das mulheres, essa transição traz também uma reavaliação do que faz sentido manter.

O que não existe é um dado sólido dizendo que decisões de mudança de carreira ou de relacionamento se concentram estatisticamente nessa fase. Então trato isso como hipótese clínica, não como fato estabelecido.

A hipótese é esta: junto com o desconforto, aparece uma redução da paciência com o que não faz sentido. Relações desiguais, trabalhos que consomem sem devolver, papéis assumidos por obrigação. E vale considerar que talvez não seja a menopausa te deixando difícil, e sim reduzindo sua tolerância àquilo que já era difícil e você vinha suportando.

O que a evidência mostra que ajuda

Vale saber que existe respaldo científico para o suporte psicológico nessa fase, e não apenas para o tratamento hormonal.

Em novembro de 2024, o NICE, órgão britânico que define diretrizes clínicas para o sistema público de saúde do Reino Unido, passou a recomendar a TCC específica para menopausa como opção de manejo, seja junto da terapia hormonal, seja como alternativa para quem prefere não usar hormônios ou tem contraindicação. A recomendação veio depois de evidências de melhora no sono e nos sintomas vasomotores, com o efeito mais expressivo justamente na redução do incômodo e do sofrimento associados aos sintomas.

Uma revisão sistemática publicada em 2025 na BMC Women's Health, cobrindo estudos de 1990 a 2024, encontrou que a TCC melhora qualidade de vida e alivia sintomas vasomotores, psicológicos e de sono, com os melhores resultados em formato de grupo e resultados moderados, mas significativos, em materiais de autoajuda guiada.

Um estudo da UCL com dados de mais de três mil mulheres encontrou que intervenções psicossociais em geral melhoraram qualidade de vida, com a TCC se mostrando efetiva para sintomas como ansiedade e depressão.

Na prática, algumas coisas que costumam ajudar:

Nomear. Boa parte do sofrimento vem de achar que é você, e não a transição. Saber que existe explicação documentada já reduz a autocrítica.

Registrar. Anotar por algumas semanas o que aconteceu, como você reagiu e o que passou pela sua cabeça costuma revelar padrões que a memória não guarda. É uma ferramenta simples e pode ser feita sozinha.

Checar as frases duras. Aquelas que aparecem automaticamente: "estou insuportável", "não sirvo mais", "meu casamento não resiste a isso". Antes de aceitá-las como verdade, talvez valha perguntar que evidências você realmente tem, e o que você responderia a uma amiga que dissesse o mesmo sobre si.

Buscar suporte antes de ter certeza de que precisa. Vale para o acompanhamento médico e para o psicológico. Menopausa não é algo a ser suportado em silêncio até passar.

Fontes

Reisel, D. et al. Prevalence of Cognitive and Mood-Related Symptoms in a Large Cohort of Perimenopausal and Menopausal Women. BJPsych Open, 2024.

Badawy, Y.; Spector, A.; Lee, Z.; Desai, R. Meta-análise sobre risco de depressão nos estágios da menopausa. Journal of Affective Disorders, 2024. University College London.

Stress, depression, and anxiety: psychological complaints across menopausal stages. Frontiers in Psychiatry, 2024.

Vincent, C. et al. Associations between menopause and body image: A systematic review. Women's Health, 2023.

Kelly, L. A Qualitative Study of Women's Self-Concept During Menopause. National College of Ireland, 2020.

Postmenopausal women's perceptions regarding menopause within the context of c Cognitive behavioral model: A qualitative evaluation.

Steffan, B. Managing menopause at work: The contradictory nature of identity talk. Gender, Work & Organization, 2021.

Cognitive behavioural therapy for menopausal symptoms: a systematic review of efficacy in improving quality of life. BMC Women's Health, 2025.

NICE. Menopause: identification and management (NG23), atualização de novembro de 2024.

Mass General Brigham. Menopause and Mental Health, com Dra. Hadine Joffe.

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação ou acompanhamento psicológico individualizado.

Leia também: Se a ansiedade tem sido o sintoma mais presente, veja o artigo sobre Transtorno de Ansiedade Generalizada.

Na semana passada falamos sobre os 6 sinais de que você está em transição de identidade (e não em crise), tema que se conecta diretamente com o que a menopausa provoca.

Amanda Catuna | Psicóloga Clínica Pós-graduanda em TCC | Albert Einstein MBA em Gestão Estratégica de Pessoas | FGV Coautora do livro Psicologia Intercultural na Prática Clínica Atendimento online para todo o Brasil e exterior

 
 
 

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Amanda Catuna, psicóloga online e no Tatuapé para brasileiros no Brasil e exterior

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