Perfeccionismo não é qualidade, é ansiedade disfarçada: o que a TCC ensina sobre isso
- Psicóloga Amanda Catuna

- há 7 horas
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Por Amanda Catuna | Psicóloga Clínica | Especialista em TCC e Psicologia Intercultural

"Sou perfeccionista" costuma ser dito quase como um elogio disfarçado, aquela resposta pronta para perguntas de entrevista de emprego, uma forma socialmente aceita de admitir um defeito que, no fundo, parece uma virtude. Mas na prática clínica, o que vejo repetidamente é outra coisa: por trás do perfeccionismo, quase sempre existe ansiedade. E ansiedade não é qualidade. É sofrimento.
O que a psicologia entende por perfeccionismo
O perfeccionismo, do ponto de vista clínico, não é sobre ter padrões altos. Todos nós temos padrões, e isso não é um problema. O que caracteriza o perfeccionismo como um padrão psicológico disfuncional é a combinação entre estabelecer metas extremamente elevadas e avaliar o próprio valor de forma rígida com base no alcance dessas metas, mesmo quando esse padrão é irreal ou insustentável.
Os pesquisadores Paul Hewitt e Gordon Flett, referências centrais nos estudos sobre o tema, descrevem o perfeccionismo em diferentes dimensões. Existe o perfeccionismo autodirigido, quando a pessoa impõe a si mesma padrões extremamente altos. Existe o perfeccionismo dirigido aos outros, quando se espera dos outros o mesmo nível de exigência. E existe o perfeccionismo socialmente prescrito, quando a pessoa acredita que os outros esperam perfeição dela, e que só será aceita ou valorizada se corresponder a esse padrão.
Essa terceira dimensão, o perfeccionismo socialmente prescrito, é a que a literatura científica mais associa a quadros de ansiedade e sofrimento emocional. Porque ali não se trata apenas de exigência pessoal, trata-se de uma crença profunda de que o afeto, a aprovação e o pertencimento dependem de nunca falhar.
A ligação entre perfeccionismo e ansiedade
Do ponto de vista da Terapia Cognitivo-Comportamental, o perfeccionismo funciona como um sistema de crenças que sustenta e alimenta a ansiedade. A lógica costuma seguir um padrão parecido: "eu só tenho valor se for excelente", "um erro pode significar que não sou capaz", "se eu não controlar tudo, algo vai dar errado".
Essas crenças geram um estado de vigilância constante. A pessoa está sempre monitorando o próprio desempenho, antecipando falhas, revisando exageradamente o que já fez, adiando entregas por medo de não estarem boas o suficiente. Esse padrão de pensamento e comportamento é, na prática, um dos motores centrais da ansiedade generalizada e da ansiedade de desempenho.
A pesquisadora britânica Roz Shafran, uma das principais referências em tratamento de perfeccionismo clínico, descreve esse fenômeno como "perfeccionismo clinicamente relevante", quando a busca por padrões elevados passa a comprometer significativamente o bem-estar, os relacionamentos e até o próprio desempenho, criando um ciclo onde o medo de errar paradoxalmente prejudica a qualidade do que se produz.
Por que isso costuma passar despercebido
Uma das razões pelas quais o perfeccionismo raramente é tratado com a seriedade clínica que merece é que ele é socialmente recompensado. Quem trabalha até tarde é visto como dedicado. Quem revisa um projeto dez vezes é visto como cuidadoso. Quem nunca entrega algo "incompleto" é visto como confiável.
O problema é que, por trás dessas entregas impecáveis, muitas vezes existe uma pessoa exausta, ansiosa, incapaz de descansar sem sentir culpa, e com uma voz interna que nunca reconhece o suficiente como suficiente. O perfeccionismo, nesse sentido, é um dos disfarces mais eficazes da ansiedade, porque ele produz resultados. E resultados são aplaudidos, mesmo quando o custo emocional de produzi-los é alto.

O que a TCC propõe como caminho
O tratamento do perfeccionismo pela Terapia Cognitivo-Comportamental não trabalha para que a pessoa "pare de ter padrões" ou "relaxe", como se fosse simplesmente uma questão de vontade. O trabalho terapêutico é mais preciso do que isso.
Uma parte central do processo envolve identificar e questionar as crenças centrais que sustentam o perfeccionismo, como a equivalência entre desempenho e valor pessoal. Outra parte envolve experimentos comportamentais, situações estruturadas em que a pessoa é convidada a testar, na prática, o que aconteceria se ela entregasse algo "bom o suficiente" em vez de "perfeito", e observar que as catástrofes antecipadas geralmente não se confirmam.
Também é comum trabalhar a tolerância ao desconforto da imperfeição, já que grande parte do sofrimento perfeccionista vem não do erro em si, mas da ansiedade antecipatória de que o erro possa acontecer. Ensinar o sistema nervoso a tolerar essa incerteza, sem precisar eliminá-la por completo através do controle excessivo, é uma parte fundamental do processo terapêutico.
Um convite à reflexão
Se você se reconheceu neste texto, talvez valha a pena se perguntar: essa exigência que você tem consigo mesma nasce de um padrão de excelência saudável, ou de um medo profundo de que você só seja aceita se nunca falhar?
A resposta a essa pergunta não muda da noite para o dia. Mas nomear com precisão o que está por trás do perfeccionismo é o primeiro passo para transformar uma exigência que adoece em um padrão que, de fato, sirva a você, e não o contrário.
Leia também: sobre como o esgotamento crônico se desenvolve e o que a ciência diz sobre burnout: [link do artigo de burnout]
No Substack desta semana, uma reflexão mais pessoal sobre perfeccionismo e ansiedade: [link do Substack]
No Medium, um aprofundamento científico sobre perfeccionismo e ansiedade em mulheres de alta performance: [link do Medium]
Amanda Catuna Psicóloga online | Especialista em TCC e Psicologia Intercultural Pós-graduanda em TCC — Hospital Israelita Albert Einstein MBA em Gestão Estratégica de Pessoas — FGV Coautora do livro Psicologia Intercultural na Prática Clínica Atendimento online para todo o Brasil e exterior amandacatunapsicologa.com | (11) 98038-9916




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