TAG: quando a preocupação deixa de ser normal e vira transtorno
- Psicóloga Amanda Catuna

- há 7 dias
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Por Amanda Catuna | Psicóloga Clínica | Especialista em TCC e Psicologia Intercultural
Introdução
Preocupar-se faz parte da vida. Antes de uma entrevista de emprego, de uma consulta médica importante ou de uma conversa difícil, a ansiedade aparece como um sinal do organismo de que algo relevante está por vir. Nesse sentido, a preocupação tem uma função adaptativa: ela nos prepara, nos mobiliza e nos mantém atentos.
O problema começa quando essa preocupação perde o vínculo com situações específicas e passa a existir de forma constante, intensa e difícil de controlar. Quando a mente encontra motivos para se preocupar em praticamente tudo, quando o alívio dura pouco e a ansiedade já migra para o próximo tema antes mesmo de o anterior ser resolvido.
Esse é o Transtorno de Ansiedade Generalizada, conhecido pela sigla TAG. E ele é muito mais comum do que a maioria das pessoas imagina.
O que é o Transtorno de Ansiedade Generalizada
O Transtorno de Ansiedade Generalizada é definido pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais em sua quinta edição revisada, o DSM-5-TR, publicado pela American Psychiatric Association em 2022, como a presença de ansiedade e preocupação excessivas ocorrendo na maioria dos dias por pelo menos seis meses, sobre uma série de eventos ou atividades, com dificuldade significativa de controle por parte da pessoa.
Para o diagnóstico, é necessário que a preocupação esteja acompanhada de pelo menos três sintomas adicionais entre os seguintes: inquietação ou sensação de estar com os nervos à flor da pele, fadiga fácil, dificuldade de concentração, irritabilidade, tensão muscular e perturbação do sono. Em crianças, apenas um desses sintomas adicionais é suficiente para o diagnóstico.
O que distingue a TAG da preocupação comum não é apenas a intensidade, mas a amplitude e a persistência. Quem tem TAG não se preocupa com uma coisa de cada vez. A preocupação se move constantemente entre diferentes domínios da vida, como saúde, finanças, relacionamentos, trabalho e segurança, de forma que raramente há um momento de descanso real para a mente.
Prevalência: um dos transtornos mais comuns e menos reconhecidos
A TAG é um dos transtornos de ansiedade com maior prevalência no mundo. Um estudo epidemiológico de grande escala coordenado por Ruscio e colaboradores, publicado em 2017 no JAMA Psychiatry, investigou a prevalência da TAG em 26 países com base nos critérios do DSM-5. Os resultados mostraram que a prevalência ao longo da vida varia entre 0,4% e 3,6% dependendo do país, com as nações de alta renda apresentando as taxas mais elevadas. O estudo também identificou que a TAG tende a ser crônica, com grande parte dos casos persistindo por anos sem diagnóstico ou tratamento adequado.
Nos Estados Unidos, dados do National Comorbidity Survey Replication analisados por Kessler e colaboradores em 2005 indicaram que a TAG tem uma prevalência ao longo da vida de aproximadamente 5,7% na população adulta, tornando-a um dos transtornos de ansiedade mais frequentes. O mesmo estudo revelou que a TAG frequentemente aparece em conjunto com outros transtornos, especialmente depressão maior, fobia social e transtorno do pânico, o que complica o diagnóstico e muitas vezes leva ao tratamento fragmentado das condições associadas sem que o transtorno de base seja identificado.
Hans-Ulrich Wittchen, um dos pesquisadores europeus mais influentes no campo da ansiedade, publicou em 2002 uma análise abrangente sobre o impacto da TAG na qualidade de vida e nos custos para a sociedade. Wittchen documentou que a TAG está associada a níveis significativos de incapacidade funcional, com prejuízos no trabalho, nos relacionamentos e na saúde física comparáveis aos de condições como a depressão maior. O pesquisador também destacou que a TAG é frequentemente subdiagnosticada em contextos de atenção primária à saúde, onde os pacientes chegam com queixas físicas como dores, tensões musculares e problemas de sono sem que a origem ansiosa dessas manifestações seja investigada.
As manifestações físicas da TAG: quando o corpo fala o que a mente não nomeia
Um dos aspectos mais subestimados do Transtorno de Ansiedade Generalizada é a sua expressão física. A TAG não vive apenas nos pensamentos. Ela habita o corpo de forma concreta e muitas vezes dolorosa.
A tensão muscular é um dos sintomas físicos mais característicos da TAG e frequentemente se manifesta como dores crônicas no pescoço, nos ombros e na região lombar, sem que a pessoa estabeleça uma conexão com o estado de ansiedade.
Cefaleias tensionais frequentes, bruxismo, aperto na mandíbula e sensação de nó no estômago também são queixas comuns em pessoas com TAG.
Os distúrbios do sono merecem atenção especial. Quem tem TAG raramente consegue descansar de verdade, pois a mente permanece ativa mesmo durante a noite. A dificuldade de iniciar o sono, os despertares frequentes e a sensação de acordar já cansado são manifestações físicas diretas do estado de hiperativação do sistema nervoso que caracteriza o transtorno.
Behar e colaboradores publicaram em 2009 uma revisão teórica abrangente sobre os modelos explicativos da TAG no Journal of Anxiety Disorders, na qual discutiram em profundidade o papel da preocupação crônica como mecanismo central do transtorno. Os autores documentaram que a preocupação excessiva funciona paradoxalmente como uma tentativa de evitar o sofrimento emocional, pois ao manter a mente ocupada com cenários futuros hipotéticos, a pessoa evita entrar em contato com emoções mais intensas e difíceis no presente. Esse mecanismo, embora temporariamente aliviante, perpetua o ciclo de ansiedade e aumenta progressivamente a resposta de ativação do sistema nervoso autônomo, gerando um estado de tensão física crônica.
Além disso, a TAG está associada a manifestações no sistema digestivo, como síndrome do intestino irritável, náuseas e alterações no apetite. Isso explica por que tantas pessoas com TAG percorrem um longo caminho de consultas médicas especializadas antes de chegarem a um profissional de saúde mental: os sintomas físicos chegam primeiro e frequentemente ofuscam o quadro emocional subjacente.
TAG e relacionamentos: quando a ansiedade afeta quem você ama
O impacto da TAG não se limita à vida interna de quem carrega o transtorno. Ele se estende aos relacionamentos de forma significativa.
A preocupação excessiva com a segurança e o bem-estar dos outros, característica frequente na TAG, pode gerar dinâmicas de superproteção e controle que sobrecarregam os vínculos afetivos. A dificuldade de tolerar a incerteza, que é uma das marcas centrais do transtorno, muitas vezes se traduz em necessidade de reasseguramento constante por parte das pessoas próximas, o que pode gerar desgaste nas relações ao longo do tempo.
O estudo de Ruscio e colaboradores (2017) documentou que pessoas com TAG apresentam taxas significativamente mais elevadas de conflitos interpessoais e dificuldades nos relacionamentos íntimos do que a população geral sem o transtorno.
Esses dados reforçam a importância de compreender a TAG não apenas como uma condição individual, mas como uma condição que afeta o sistema relacional de quem vive com ela.
Por que tanta gente não sabe que tem TAG
A dificuldade de reconhecer a TAG é compreensível por várias razões.
A primeira é a naturalização da preocupação. Em uma cultura que frequentemente valoriza a produtividade, o planejamento e a antecipação de riscos, é difícil distinguir onde termina a pessoa diligente e comprometida e onde começa o transtorno de ansiedade. Muitas pessoas com TAG são vistas por si mesmas e pelos outros como simplesmente responsáveis ou perfeccionistas.
A segunda razão é que os sintomas físicos chegam antes que a pessoa consiga nomear o sofrimento emocional. Como descrito anteriormente, dores, tensões e problemas de sono são frequentemente tratados como condições isoladas sem que a ansiedade generalizada seja investigada como origem.
A terceira razão é a sobreposição com outros transtornos. Wittchen (2002) documentou que a TAG raramente aparece sozinha, o que significa que muitas vezes o diagnóstico foca nas condições associadas, como depressão ou insônia, sem identificar o transtorno de ansiedade que está na base do quadro.
O papel da Terapia Cognitivo-Comportamental no tratamento da TAG
A Terapia Cognitivo-Comportamental é reconhecida internacionalmente como o tratamento psicológico com maior evidência científica para o Transtorno de Ansiedade Generalizada.
Thomas Borkovec, um dos pesquisadores que mais contribuiu para a compreensão clínica da TAG, publicou junto com Ruscio em 2001 uma análise sobre a psicoterapia para o transtorno no Journal of Clinical Psychiatry. Os autores documentaram que a TCC produz melhorias significativas e duradouras nos sintomas de TAG, com resultados que se mantêm em avaliações de seguimento realizadas meses após o término do tratamento. O estudo destacou que a intervenção psicológica é especialmente eficaz quando aborda não apenas os sintomas superficiais da ansiedade, mas os processos cognitivos e comportamentais que mantêm o ciclo de preocupação ativo.
Uma meta-análise conduzida por Stefan Hofmann e Jasper Smits, publicada em 2008 no Journal of Clinical Psychiatry, analisou os resultados de ensaios clínicos randomizados e controlados por placebo sobre a eficácia da TCC para transtornos de ansiedade em adultos. Os resultados confirmaram que a TCC é significativamente superior ao placebo no tratamento da TAG, com tamanhos de efeito considerados de moderados a grandes. O estudo também observou que os ganhos terapêuticos da TCC tendem a ser mais estáveis ao longo do tempo do que os produzidos apenas por intervenção farmacológica.
Na prática clínica, o trabalho em TCC para TAG envolve algumas frentes complementares.
A primeira é a identificação e a reestruturação dos pensamentos automáticos negativos e das crenças centrais que alimentam a preocupação excessiva. A segunda é o trabalho com a intolerância à incerteza, que Behar e colaboradores (2009) identificaram como um dos mecanismos cognitivos mais centrais na manutenção da TAG. A terceira é o desenvolvimento de estratégias de regulação emocional que permitam à pessoa entrar em contato com emoções difíceis sem recorrer à preocupação como mecanismo de evitação.
A quarta é o trabalho com técnicas de relaxamento e ativação comportamental que reduzem a hiperativação fisiológica característica do transtorno.
O objetivo do tratamento não é eliminar a ansiedade, pois ela é parte natural da experiência humana. É restituir à pessoa a capacidade de viver com a incerteza sem que ela paralise ou domine a vida cotidiana.
Conclusão
O Transtorno de Ansiedade Generalizada é uma condição real, prevalente e com impacto profundo na qualidade de vida de quem vive com ela. Os dados apresentados ao longo deste artigo mostram que a TAG vai muito além da preocupação comum: ela afeta o corpo, os relacionamentos, o desempenho profissional e a saúde mental de forma ampla e muitas vezes silenciosa.
A boa notícia é que existe tratamento eficaz e acessível. A Terapia Cognitivo-Comportamental oferece um caminho estruturado e baseado em evidências para que a pessoa compreenda os mecanismos que mantêm a ansiedade ativa e desenvolva novas formas de se relacionar com a incerteza e com as emoções difíceis.
Se você se reconheceu em alguma parte deste artigo, considere buscar uma avaliação com um profissional de saúde mental. Nomear o que você sente é o primeiro passo para transformá-lo.
Referências
American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (5th ed., text revision). DSM-5-TR.
Behar, E., DiMarco, I. D., Hekler, E. B., Mohlman, J., & Staples, A. M. (2009). Current theoretical models of generalized anxiety disorder: Conceptual review and treatment implications. Journal of Anxiety Disorders, 23(8), 1011–1023.
Borkovec, T. D., & Ruscio, A. M. (2001). Psychotherapy for generalized anxiety disorder. Journal of Clinical Psychiatry, 62(suppl 11), 37–45.
Hofmann, S. G., & Smits, J. A. (2008). Cognitive-behavioral therapy for adult anxiety disorders: a meta-analysis of randomized placebo-controlled trials. Journal of Clinical Psychiatry, 69(4), 621–632.
Kessler, R. C., et al. (2005). Lifetime prevalence and age-of-onset distributions of DSM-IV disorders in the National Comorbidity Survey Replication. Archives of General Psychiatry, 62(6), 593–602.
Ruscio, A. M., et al. (2017). Cross-sectional comparison of the epidemiology of DSM-5 generalized anxiety disorder across the globe. JAMA Psychiatry, 74(5), 465–475.
Wittchen, H. U. (2002). Generalized anxiety disorder: prevalence, burden, and cost to society. Depression and Anxiety, 16(4), 162–171.
Amanda Catuna é psicóloga clínica, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e Psicologia Intercultural. Coautora do livro Psicologia Intercultural na Prática Clínica. Atende online para todo o Brasil e exterior. Para agendamento, acesse amandacatunapsicologa.com ou entre em contato pelo (11) 98038–9916.




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